quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Infelicidades da democracia

Tenho um amigo que costuma dizer que a democracia é muito linda. Mas no papel. Na prática, ela não funciona como deveria. Não que ele defenda outros meios de governo (se bem que eu desconfio que ele arraste uma asinha pela ditadura militar, rs), pelo contrário! Ele diz isso da democracia mas afirma que mal ou bem é a melhor forma de governo atualmente. E eu sou obrigado a concordar com ele, que a democracia só funciona no papel, pelo menos no que diz respeito ao nosso país.

É só abrir os jornais e revistas, on line ou de papel mesmo, ou ligar a TV no noticiário que vemos ai o mar de lama que é a nossa tão aclamada democracia. “Ah, somos um país jovem!”, uns clamam, quase em uníssono com outros que clamam “Só temos 25 anos de democracia depois da ditatura militar!”,  como se isso justificasse o fato de que o povo até hoje não sabe votar.  O fato é que sim, passamos por 20 anos de ditadura militar, que limou o direito básico do povo ao voto para presidente, mas o direito readquirido com a promulgação da constituinte em 1988, que não só permitiu o povo que vote mas o tornou uma obrigação. E cá entre nós: tudo o que se é obrigado a fazer é muito ruim. O que fazemos por livre e espontânea vontade é bem mais prazeroso. E eu não tenho, sinceramente, prazer nenhum em votar. 

Muitos defendem a permanência do voto obrigatório alegando que o povo brasileiro não está preparado para o voto facultativo. Eles dizem que o voto obrigatório torna o voto de cabresto mais difícil. Eu não vejo assim. Voto de cabresto, uma praga, que nos ronda há séculos vinda do coronelismo dos tempos do Brasil Império, não seria nem mais nem menos favorecido, assim como a compra de votos (prática que eu realmente não entendo, pois, se o voto é secreto, como provar que sicrano realmente deu o voto para fulano?). Mas o maior absurdo disso tudo é você ser OBRIGADO a fazer algo que deveria fazer por livre e espontânea vontade e com consciência - mas claro que não é.

Estou divagando sobre esse tema depois de ter lido hoje a última declaração de nosso (des)governador  Sérgio Cabral, um pária que eu abomino e que eu tenho certeza que deveria estar enfurnado numa cela escura em Bangu 1: “Quem aqui que não teve uma namoradinha que teve que abortar?”. (leia a matéria no O Globo) Essa frase ele teria dito ao se referir a hipocrisia com que o tema aborto é tratado no páis. Eu digo ao nosso estimado fanfarrão que posso levantar minha mão e posso indicar todos meus amigos. Mas não estou aqui para falar só mal do Cabral. Também hoje fomos brindados com a notícia de que Paulo Maluf e Anthony Garotinho foram absolvidos pela justiça eleitoral que os julgava no processo dos “Ficha Limpa”. E também para falar na eleição do (não menos palhaço que os que o elegeram) Tiririca, que foi também absolvido da acusação de ser analfabeto e de ter fraudado sua inscrição na eleição. Poderia ainda citar o ex-Presidente Fernando Collor, que há alguns anos voltou com pompa e circunstância para o cenário político elegendo-se Deputado Federal (e que graças ao bom senso do povo alagoano não vai permanecer lá como Senador) e trocando afagos com o Presidente Lula, seu antigo rival. Exemplos não faltam.

Sinceramente, se ter que eleger o menos pior ou o que “rouba mas faz” é sinal de que somos maduros o suficiente para votar, mas não o suficiente para votarmos se quisermos, e que tudo isso é uma festa da democracia, por favor, parem o mundo que eu quero descer (antes que eu acabe levantando a bandeira da ditadura).



EDIT: Hoje, ao final da tarde, o congresso nacional nos lançou a torta-na-cara de final de ano, ao aprovar o aumento de seus vencimentos. A partir de fevereiro de 2011, presidente, vice-presidente, senadores e deputados federais passam a ganhar o mesmo que os ministros do Supremo Tribunal Federal: R$ 26.723,13. Enquanto isso, o salário mínimo continua R$ 540,00.

Um comentário:

  1. Poggi, o único "mal" da democracia do nosso país citado no seu texto é ser obrigado a votar (mal entre aspas, pois eu sou a favor da obrigatoriedade). Já o resto dos problemas que você citou, pra mim é uma análise falha atribuir a causa à democracia, como se a ausência desta ajudasse a resolvê-los. O fato é que a ditadura que experimentamos no Brasil foi um período negro de corrupção generalizada. Corrupção sem críticas, sem fiscalização, sem protesto (ou com protestos punidos à bala). Todos os vícios de quem está no poder são potencializados ao máximo numa ditadura. Faz parte da própria mecânica deste sistema nefasto de governo.
    A democracia não é a "melhor forma de governo atualmente". É a única forma de governo. Nenhuma outra é aceitável.

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