sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Vôo rasante

Os primeiros 20 minutos (mais ou menos) de qualquer filme são essenciais para que o público entenda e compre a história. Isso é um fato praticamente certo e ensinado na primeira aula de roteiro em qualquer curso ou escola de cinema. Em "O VÔO", o roteirista John Gatins leva essa premissa tão a sério que facilmente conhecemos os personagens e sabemos quais serão suas reações ao longo dos 100 minutos seguintes. Whip Whitaker (Denzel Washington, mais uma vez em excelente atuação, que lhe rendeu até uma indicação ao Oscar esse ano) é um piloto  comercial veterano, extremamente competente e seguro de seus atos mas que tem problemas com bebidas e drogas. Eles não é simplesmente um pinguço que dá uma cafungadinha (desculpem o palavreado chulo) de vez em quando; ele é alcoólatra inveterado, mas tão seguro de sim, que é capaz de decolar uma aeronave em meio a uma tempestade tropical ainda de ressaca.
Até ai poderíamos achar que o sujeito é um irresponsável e merece ser punido severamente, mas suas habilidades são postas a prova nesse mesmo vôo, quando um defeito no leme do avião provoca um mergulho súbito e põe em perigo todos as 102 pessoas a bordo, inclusive ele e sua tripulação. Com uma manobra impossível (chega a planar com a máquina de cabeça para baixo), ele consegue ganhar um minutos a mais de vôo até esborrachar a aeronave num terreno no arredores de Atlanta, salvado 96 vidas (a dele, inclusive). Palmas para nosso herói.

Robert "De volta para o Futuro" Zemeckis conduz esse misto de filme-de-ação com drama existencial como só ele poderia. Não se pode falar uma vírgula sequer sobre sua capacidade de dirigir cenas de ação (como a citada queda acima) ou uma cena dramática, como a do Cmte. Whitaker indo visitar o hospitalizado co-piloto (Brian Geraghty)  carola e sua jovem e mais carola ainda esposa . O que incomoda, no entanto, é a ambiguidade do próprio personagem ao longo da narrativa. De alcoólatra inveterado, após o acidente ele joga todas as bebidas de casa ralo abaixo, assim como faz com toda maconha e coca que tem "estocado", mas volta a beber e se drogar quase sem motivo, mesmo conhecendo Nicole (aliás, uma das cenas mais antológicas do filme, onde a existência de Deus é questionada de forma lúgubre) e por ela se apaixonando. Já não conhecemos mais o personagem. O que ele  quer afinal? Ele é realmente um herói? Ele deu sorte? Ele é responsável pela queda? O roteiro, incrivelmente indicado ao Oscar, não deixa claro quais as ambições do personagem, que termina o filme numa previsível redenção, que vai oferecer-lhe a oportunidade de se reaproximar do filho de 15 anos, que, enfim, lhe pergunta: "quem é você?', ao que nosso querido (e odiado) Whitaker responde: "essa é uma ótima pergunta!". Ficamos então, espectadores, a nos perguntar o mesmo e sem ter uma resposta ao certo.

"O Vôo" é um bom filme, que flerta com alguns estilos distintos, como drama e comédia, e tem em seu elenco o maior mérito. Destaque para John Goodman, como o amigo "trafica" de Whitaker, roubando todas as (poucas) cenas em que aparece.

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