quarta-feira, 21 de março de 2012

A Dama de Pedra (conto)


Lembro como se fosse ontem –  ou mesmo hoje de manhã! –  a primeira vez que pus meus olhos em você, ou pelo menos a primeira vez que notei que você faria parte de minha vida, que seria meu destino conquistá-la, uma vez que sempre esteve ali, tão perto, mas a mesmo tempo tão distante. Eu tinha oito anos, recém completos, e meu pai havia me levado à praia de São Conrado, naquele tempo ainda bem limpa, para pescar junto ao costão da que viria a se chamar Avenida Niemeyer –  futura via de acesso àquela praia um tanto selvagem ainda, cercada pela mata atlântica e cujo único testemunho da presença humana eram duas ou três casas de pescadores à beira da estrada que levava à mais desértica ainda Barra da Tijuca, por entre a floresta.

Meu pai não era verdadeiramente o que se pode chamar de “o pescador”, mas após uma semana inteira de dedicação ao trabalho sobre uma prancheta do Ministério, algumas horas apenas ouvindo a melodia das ondas do mar, intercaladas com o som dos berros das gaivotas –  e ocasionalmente a excitação por ter a isca mordida por um peixe –  eram o suficiente para ele, como se fosse uma terapia. 

Normalmente ele não me levava a essas pescarias, mesmo porque eu, no alto de meus oito anos, certamente tinha coisas melhores a fazer do que ficar em silencio quase absoluto, colocando pedaços de minhocas vivas ou camarões secos nos anzóis –  minha tarefa básica como ajudante do pescador. Eu queria estar longe dali, no alto de uma árvore na fazenda de minha tia-avó no interior de São Paulo, talvez, ou andando de bicicleta com meus amigos na praça do Bairro Peixoto, onde morava. Lembro-me bem da pirraça que fazia sempre que meu pai resolvia me chamar para acompanhá-lo nessas pescarias, e de como era convencido pela minha mãe a ir.

– Um menino deve passar o maior tempo possível ao lado de seu pai –  ela dizia.

De alguma maneira eu sabia que ela estava certa, mesmo com tão pouca idade, e na verdade eu gostava de fazer companhia a ele, quando ele ia comprar algo na mercearia da esquina, quando ia colocar gasolina no carro, até mesmo quando ia ao trabalho, onde eu o admirava desenhando mapas sobre a prancheta, mas nunca, nunca, quando resolvia ir pescar, porque eu sabia que, mais do que um interminável passa-tempo, e nojento, diga-se de passagem, eu não o ouvia falar nada. Era como se um manequim estivesse ali ao meu lado; pouco se mexia, a não ser para lançar e recolher a linha e, eu imaginava, mal respirava.

Em todo o caso, ali eu estava, sentado na areia, nela  desenhando um cowboy com um graveto, sem dar a mínima para as ondas que sempre o apagavam, muito menos para o estático do meu pai, que fumava um cigarro sem encostar-lhe os dedos, fazendo com que as cinzas acumulassem no pitoco e caíssem apenas com a ajuda da gravidade. O dia estava meio nublado, o que tornava aquilo tudo muito mais chato. Eu precisava sair dali!

– Pai, quero fazer xixi –  avisei, mais como uma desculpa para me afastar dali.

– Levanta e faz ai na água, ora.

Olhei fixo para ele, constrangido e um tanto irritado. Claro que eu costumava urinar na frente dele no banheiro de casa, mas ali, com algumas pessoas olhando, era demais! Ora, eu tinha oito anos! Era praticamente um adolescente! Era ultrajante me sujeitar àquilo.

Meu pai me olhou e percebendo que eu queria mesmo era me distrair um pouco, longe dali, me deixou ir me aliviar nos arbustos atrás de nós, perto de onde havíamos parado o carro.

Foi aí que tudo aconteceu. Por alguma razão divina, como se fosse uma conspiração da natureza, as nuvens se dispersaram um pouco, por um breve instante, mas o suficiente para os raios do sol me chamarem a atenção para o brilho que se refletiu em seu rosto. Eu fiquei sem ar, lembro, e aquele instante me pareceu eterno. Ver você ali, olhando para o nada, praticamente ignorando minha presença, tendo o sol a banhar sua face, refletindo a umidade que lhe escorria da testa, foi como uma visão do paraíso, e eu nem me importei que minhas partes estavam à mostra.

Esse mágico instante foi interrompido por meu pai me chamando para ajudá-lo a apanhar uma tainha que mordia à isca. Não sei quantas vezes teve que me chamar até eu ouvi-lo, mas certamente foi o bastante para o deixar nervoso.

Voltei para a casa com seu rosto em minha mente e um único pensamento: você vai ser minha!

Os dias, as semanas, os meses e até os anos se passaram e sempre que meu pai ia pescar, eu agora me voluntariava para ir com ele, e insistia em ir à São Conrado. Eu tinha certeza de que aquele momento mágico se repetiria sempre que eu a visse, mas claro que meu pai não sabia disso e, assim como minha mãe, apenas ficou admirando por minha súbita vontade de acompanhá-lo.

Mas por algum motivo, com o passar dos anos, meu pai desistiu da pescaria e eu fui forçado a me afastar de você. Eu sabia que podia vê-la de longe, mas isso não me bastava; eu precisava estar perto, cada vez mais perto. Mas era difícil, até mesmo para um adolescente, naquela época chegar até você.

Eu tinha quatorze anos quando dei meu primeiro beijo. Foi com a menina que eu amei durante toda àquela fase conturbada da minha vida, e não me envergonho de você ter sido testemunha desse beijo, mesmo porque você tinha sempre a atenção voltada para longe de mim, embora você soubesse que eu estava ali, eu sentia isso! 

Muita coisa aconteceu em minha vida e posso dizer com certeza que você foi testemunha de quase tudo, mas eu queria você, eu tinha que conquistá-la. Eu sabia que outros já haviam tentado, alguns outros conseguido, mas nenhum deles, com certeza, com a mesma paixão que eu sentia. “Você vai ser minha!”, prometia  a mim mesmo.

– Você está louco! –  meus amigos diziam.

– É muito perigoso! –  minha mãe dizia.

Mas eu só tinha olhos para você então. E já tinha dezoito anos; ninguém poderia me impedir. Eu já havia praticado em outras e, sim, havia me machucado. Mas a sensação de se chegar lá era como receber o beijo de um anjo, era... era como estar em harmonia com o universo! 

Por isso, naquela manhã de outono, munido de apenas um sanduíche de presunto e um cantil, eu me embreei naquela mata. A umidade era tanta que eu poderia ter ido a uma cachoeira e não ter me molhado tanto. Mas a excitação era tanta que eu não parei um segundo. Eu ia chegar até você custasse o que fosse. Nem mesmo os insetos me importunavam. E o medo de me perder deu lugar à raiva por estar segundo a trilha aberta por aqueles que antes de mim chegaram até você primeiro.

Mas a cólera passou ao, de repente, me deparar de frente a sua face, que agora parecia ainda mais bela, mais brilhante, e parecia piscar para mim, embora mantivesse o olhar para o horizonte. A alegria que aflorou em mim era tanta que meu coração parecia querer pular para fora de meu peito. Minha respiração ficou mais difícil e minhas pernas finalmente foram vencidas. Ajoelhei e fiz uma prece. Agradeci a Deus por ter vencido, por Ele ter me dado forças para estar aqui, junto de ti. Terminada a prece, agachei-me e lhe dei um beijo.

Sentado a seu lado, observei a cidade do Rio de Janeiro, que crescia mais ainda a olhos vistos, mas ali, contigo, tudo era pequeno. Só nós existíamos e tínhamos por testemunha a mãe-natureza, que nos brindava com um sol ameno e um lindo céu azul.

Foram anos e anos de espera mas finalmente nos encontramos. Você é minha, minha! Eu sempre soube que você estava a minha espera, desde aquele dia em que o Criador revelou seu rosto para mim. E para sempre estaremos juntos. Eu e você. Minha Pedra da Gávea.





Conto de minha autoria, em 2009.

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