segunda-feira, 19 de março de 2012

Histórias Cruzadas


Os EUA são um país racista. Fato. O Brasil, mesmo que os hipócritas de plantão queiram dizer o contrário, também é. Fato. A diferença básica entre esses dois países, no entanto, está na forma como esse racismo é explicitado; enquanto lá existia há ate poucas décadas segregação até para se andar num ônibus, por aqui havia o costume louco de colocar pó-de-arroz nos jogadores de futebol de alguns clubes mais elitistas, por assim se dizer, de modo a “clarear” a sua pele. No mercado de trabalho, ambos os países tiveram a mesma política, mesmo porque ambos tiveram seus negros (ou afro-descendentes, como os politicamente-chatos gostam de dizer) advindos da escravidão, que terminou sem que as maiorias esmagadoras dos negros abolidos tivessem um mínimo de educação (eram analfabetos!) e, por conseguinte, condições de arrumar trabalho qualificado e bem remunerado.  O resultado dessa maneira irresponsável como os negros foram abolidos de sua condição escrava se vê até hoje, mais de 150 anos depois, infelizmente.

Hollywood, por sua vez, não poderia deixar de levar as telas histórias comoventes, e até tragicômicas, dessa mancha na humanidade. Filmes como “Amistad”, de Spielberg, e seriados de TV como o clássico “Raízes” contam como o sofrimento de toda uma raça começou. Sim, raça. Mesmo que o conceito de raça esteja em vias de extinção (mais uma vez, creio, por influencia dos politicamente-chatos), não vejo menor problema em separar a espécie humana, homo sapiens, em raças com  características distintas, mas com igual potencial de desenvolvimento. Enfim, a sétima arte, apoiada em vasta e rica literatura, volta e meia nos brinda com um delicioso e comovente filme sobre a luta dos negros, maiores vítimas do racismo (fato). “The help”, ou “histórias Cruzadas” como o título brasileiro a chama,  é belo exemplo.

No filme, Skeeter Phelan (Emma Stone, a lindinha da vez em Hollywood), uma jovem de Jackson, Mississipi,  recém-formada em jornalismo, almeja uma vaga numa importante revista em Nova York, mas ela precisa primeiro galgar seu lugar ao sol. Para tanto, consegue emprego no jornal local, sendo responsável pela coluna de ajuda doméstica. Por isso conta com a ajuda de Aibileen Clark (Viola Davis, merecedora de todos os elogios possíveis), empregada da dondoca Elizabeth Leelfot (Anna O’Reilly). Incomodada com maneira como Aibileen e outras domésticas são tratadas pela suas ex-colegas de escola, e agora estereótipos de donas-de-casa mais que desesperadas, Skeeter tem a idéia de transformar os relatos de Aibileen e outras domésticas em um livro de autor anônimo. Com o ajuda providencial de Minny Jackson (a devidamente oscarizada Octavia Spencer), empregada humilhada, que dá um troco sutil na patroa “presidente do clube das dondocas” Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard, linda e talentosa como sempre), Skeeter consegue adesão de mais domésticas e, para o desespero das patroas, que mesmo sem terem seus nomes revelados se vêem descritas nas páginas, o livro é um sucesso.

Baseado no romance de Kathryn Stockett, o roteiro escrito por Tate Taylor, que também dirige a fita (seu segundo longa), ambienta muito bem aqueles personagens no início da década de 1960, no sul racista estadunidense. Taylor dirige com sensibilidade, sem nunca ser piegas ou levantar a bandeira do politicamente correto, mesmo em momentos clichês, e extrai de suas atrizes (todos os homens são coadjuvantes, quase desnecessários) o supra-sumo da atuação, não à toa três delas foram indicadas ao Oscar (tendo Octavia levado pra casa sua estatueta dourada), o que me deixa encucado com o fato dele mesmo não ter sido indicado ao prêmio de melhor diretor. A fotografia e a direção de arte do filme também são dignos de merecidos elogios, e igualmente foram ignorados pela Academia. Enfim, vai entender Hollywood, que considerou “Shakespiere apaixonado” o melhor filme de 1998 e Roberto Benini melhor ator aquele mesmo ano.

Se você já viu o filme e gostaria de te-lo sempre a mão, numa edição bem bonitinha, eis o link para compra-lo na Amazon dos EUA, com legenda e áudio no nosso idioma:



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