sexta-feira, 9 de março de 2012

IO-IOs e Cinema 3D



Hoje li uma matéria no Globo on line sobre o faturamento em queda dos filmes 3D. Apesar da reportagem fazer alusão apenas ao mercado da grã-bretanha, podemos espelhar seu resultado para os demais mercados. Como eu não enxergo em 3D por ter visão monocular e posso soar recalcado, não vou ficar falando isso e aquilo sobre o formato (minha opinião é de que o conteúdo sempre deve ser priorizado em detrimento à tecnologia). Mas a notícia me chamou a atenção porque para todos que estão no mundo há pelo menos uns 35 anos (minha idade) e conhecem um mínimo da história do cinema, é sabido que o 3D já existe há décadas e sazonalmente a moda de filmes nesse formato invade a sociedade, da mesma forma que o io-io da Coca-cola.


Primeiramente foi nos anos 1950. A moda dos filmes 3D, principalmente os trash movies, invadiu as salas de cinema de todo o mundo, levando ordas de pessoas a se divertirem com as coisas que eram “jogadas” na sua cara durante a projeção do filme, mesmo que isso lhes causasse crises de enjôo e dor-de-cabeça, sintomas clássicos que esse tipo de entretenimento pode causar. Em alguns anos a moda foi esfriando e as pessoas perceberam que podiam se divertir muito nos cinemas sem ter que gastar dinheiro com aspirina e similares. Trinta anos depois, na década de 1980, a moda voltou às salas de cinema, com filmes como “Tubarão 3D”, que resgatavam àquela sensação de imersão nos filmes com coisas jogadas na sua cara. Novamente, os sintomas continuaram a ser um problema e a moda foi por água-abaixo. Durante os anos seguintes pouquíssima coisa foi feita no formato, que ficou relegado a parques de diversão, a exemplo do CINERAMA, o “cinema 180 graus”, da década de 1960. A última onda de 3D chegou aos cinemas com o avassalador sucesso de James Cameron, “Avatar”, que parecia ter aberto a porteira do 3D e jogado a tranca fora. Nunca tantos filmes no formato, fossem originalmente filmados em 3D ou posteriormente convertidos, chegaram às telas, levando ao ponto de um filme não ser lançado em 2D na mesma cidade em que o 3D era lançado e formando filas de filmes a espera de uma sala para ser exibido, já que pouquíssimas ainda estavam preparadas para o formato.  Pois bem, segundo a reportagem, e seguindo o fluxo da obviedade histórica, o formato parece já estar dando sinais de cansaço. Afinal, os mesmos problemas de desconforto visual, dor-de-cabeça e náuseas que os produtores e distribuidores juravam ter sido resolvidos, continuam a atormentar os amantes de cinema. Isso sem falar no ainda necessário óculos para se assistir a fita (o que é um estorvo para muita gente, principalmente para crianças e também adultos que usam óculos para correção visual).


CINEMA X TV

O interessante nisso tudo é a sazonalidade com que o formato 3D invade os cinemas. Primeiramente nos anos 1950; posteriormente nos anos 1980 (mas não com tanta força) e agora nos anos 2010. Perceberam? É um período de 30 anos! O que isso quer dizer? Bem, tecnicamente nada. Não há uma tampouco uma explicação filosófica ou mística sobre esse número. Mas se pararmos para analisar direitinho, podemos ver que nos picos desses re-lançamentos da moda há questões financeiras e até políticas envolvidas que poderiam ter influenciado a “tendência” do mercado.  Nos anos 1950 foi o advento da TV. Com medo de que as pessoas deixassem de se interessar pelo cinema em detrimento da TV, os executivos do setor não tardaram em lançar novos formatos (como o cinemascope e o widescreen) e novas tecnologias, como o nosso famigerado 3D! E deu resultado. Mas o cinema provou sua força não pela tecnologia e sim pelo seu poder intrínseco de encantar o espectador com uma boa história. 


CINEMA X VHS

No final dos anos  1970 e início dos 1980, a onda do VHS permitiu as pessoas terem em casa seus filmes preferidos, e ainda gravar filmes e programas da sua TV. Ou seja, o entretenimento doméstico ganhava força. Novamente foi a vez do 3D vir para salvar a lavoura. E novamente percebeu-se que não seria a TV ou o vídeo-cassete que tiraria o cinema do trono e que o 3D não precisava ser sua mola propulsora. Não atoa, mestres da sétima arte pipoca como Spielberg e George Lucas, na época, não lançaram nada no formato.

CINEMA X GAMES E INTERNET

Já no século XXI, o cinema começou a dar sinais de fraqueza, principalmente com o advento da internet e a popularização da banda larga, que permitiu muita gente a baixar de graça os filmes que quisesse assistir, mesmo que em resolução baixa. Alia-se a esse fato a cada vez mais grandiosa indústria dos vídeo-games, como gráficos, sons e até histórias continuamente em evolução. Os produtores e exibidores precisavam lutar contra isso. E apostaram, vejam só, mais uma vez todas as suas fichas no 3D. Agora vai! Agora ninguém segura o formato.  Escrachou de vez. Tudo é 3D. Vale tudo! Até filmes antigos estão sendo convertidos para o formato, o que para mim é um crime equivalente ao colorizar antigos clássicos rodados em PB (uma moda que graças a Deus parece ter sido enterrada a sete palmos com uma cama de cimento de uma tonelada por cima). Todos querem assistir filmes em 3D, não importa a história. Até em casa os filmes começavam a poder ser exibidos nesse formato com o advento das TVs 3D, mais finas, porém mais caras. Mas como já citado antes, os mesmos problemas de outrora são sentidos pelos espectadores, mesmo em casa. Até os óculos ainda são necessários! 

Pois bem, segundo a matéria publicada hoje no Globo on line, as pessoas começaram a perceber que para se divertir no cinema, ou mesmo em casa, não é necessário pagar mais caro. Não é necessário que tiros, lasers, piratas e smurfs saltem da tela para que um filme seja interessante e merecedor de ser assistido na sala escura com tela gigante. Basta ser bem feito. Basta uma boa história. 

Basta de 3D! Que ele fique relegado aos games e parques-de-diversão, porque ai sim desempenharia um ótimo papel! Mas quem sabe a moda volte daqui a 30 anos, com holografias e sem necessidade de óculos? Fica a dica.

Aliás... por onde andam os io-ios da Coca-Cola?!

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