quinta-feira, 5 de abril de 2012

PAZ GUERREIRA


Escrever sobre filosofia, acredito, não deva ser tarefa fácil. Mais difícil ainda conquistar leitores que não sejam estudiosos dessa cadeira. O curitibano Talal Husseini conseguiu, porém, escrever uma história atemporal com requintes épicos e profundos ensinamentos filosóficos. 

Em suas mais de 700 páginas, Talal reuniu uma gama de personagens cativantes, não obstante alguns deles deveras caricatos, como se quisesse espelhar neles os mais diversos defeitos e qualidades presentes na humanidade.  Lançando mão de ensinamentos adquiridos ao longo dos anos na arte marcial Nei Kung (onde  a filosofia alia-se ao aspecto marcial na busca de valores atemporais como justiça, ética e sabedoria) e mais do que isso, dos ensinamentos da escola grega de dramaturgia, ele conta a jornada do herói de forma quase ipsi literis, e provavelmente  por isso muitas semelhanças com elementos de outras aventuras da literatura e do cinema, que podem até soar como plágio, aparecem no decorrer da narrativa e o leitor mais atento vai logo perceber isso. “Super-homem”, “Senhor dos Anéis”, “Guerra nas Estrelas” e até mesmo “Matrix”, este o exemplo mais pop, por assim se dizer, da união da filosofia com a sétima arte, podem ser identificados na história.

(atenção: pode haver spoilers a frente!)

O ponto forte do livro é o paralelo que ao autor faz entre uma trama passada no Egito antigo, que é revivida em sonho pelo nosso herói Kadriel, com a trama principal, passada em uma época indeterminada, em um país fictício. Situações e personagens se repetem como se fosse um carma e garantem emoção. O ponto fraco – infelizmente há um ponto fraco – são algumas passagens que existem apenas para explicar uma ação futura de um determinado personagem, como o Capitão, que precisa passar por uma provação dolorosa em uma tribo selvagem para mostrar seu valor. Tal passagem poderia ter sido reduzida ou mesmo suprimida da narrativa e mesmo assim entenderíamos a ação do personagem mais a frente (ação essa, aliás, já traçada há muito tempo).

De qualquer maneira, a história envolve o leitor, que torce pelos mocinhos e odeia os bandidos, Adaram e seu lacaio  Ofis, e de quebra aprende alguma coisa sobre filosofia. Talvez por isso, o final tenha sido meio frustrante, pois quando tudo parecia estar caminhando para a conclusão da jornada do herói, com o inimigo derrotado, a paz restaurada e sacrifícios realizados em prol de um bem maior, Talal Husseini tenha decidido dar uma de Steven Spielberg em “A.I. – Inteligência Artifical”* e recontado tudo com outro ponto de vista, uma outra realidade, onde tudo se resolveu de maneira muito mais fácil e sem quaisquer sacrifícios, onde o mocinho se casa com a mocinha e vivem felizes para sempre. Ou seja, todos aqueles belos ensinamentos ao longo das 700 páginas parecem ter sido jogados de lado e deixam a dúvida: como todos os personagens que outrora enriqueceram espiritualmente e por isso conseguiram alcançar o objetivo de sua demanda única e exclusivamente por conta dos sacrifícios feitos e com eles dos ensinamentos recebidos se comportam agora da mesma forma? Estranho...


* Em “Inteligência Artificial”, Spielberg ignorou as diretrizes originais de Stanley Kubrick e em vez de deixar o robô David “morrer” no fundo do mar, resolveu resgatá-lo e presenteá-lo com uma mãe, de modo que ele  experimentasse a felicidade plena.



3 comentários:

  1. Pena que atualmente este "escritor" o Sr Talal tenha se voltado contra seus próprios princípios, e virado um mal caráter.

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  2. Sim, isso mesmo, ele foi para o lado negro da força... triste demais, para nós que víamos nele uma boa referência. E ainda deu centenas de golpes financeiros em pessoas que confiavam nele. Abram o olho, isso não Poggi acontecer novamente. Não consigo acreditar que ele escreveu este livro fantástico, deve ter pago para alguém fazer por ele.

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  3. Foi uma das pessoas que ele agradece no livro quem escreveu a obra pra ele. Dizem que a outra obra dele tem uma escrita ruim, que não se compara a da primeira obra.

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