sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Império da HBO chega aos anos 1920

Você pode não gostar muito de TV. Você pode até gostar de TV mas odiar teledramaturgia, sejam novelas, seja seriado ou minissérie. E você pode até gostar de novelas e desprezar seriados ou minisséries (nacionais ou estrangeiras), ou vice-versa. Mas o que você nunca poderá afirmar é que a toda poderosa HBO produza coisas ruins que colaboram para a alienação de uma nação (no caso, os EUA). BAND OF BROTHERS, THE PACIFIC, THE SOPRANOS, SEX AND THE CITYFROM THE EARTH TO THE MOONROMA, JOHN ADAMS, só para citar algumas, são verdadeiras obras de arte. BOARDWALK EMPIRE, a mais nova menina dos olhos da casa, só vem a confirmar essa excelência.

O império do calçadão, tradução literal em português, pode soar um tanto quanto carnavalesco, o que até certo ponto pode fazer referência a essa excelente minissérie, mas é preciso entender o contexto histórico por trás do título e da própria minissérie em si. Ambientada em Atlantic City no início da década de 1920, Boardwalk Empire mostra uma América (por assim se dizer) vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, não obstante afundada numa grande dívida social, uma crise que se agravará até a queda da bolsa de NY no final daquela década, passagem conhecida como o Grande Crash, a grande Depressão, que mal ou bem levou os EUA também a Segunda Guerra Mundial, mas esse é outro assunto.  O fato mais marcante do início dos anos 1920, no entanto, e que é o mote da série, foi a Lei Seca, a Prohibition, que proibia em todo o território estadunidense a comercialização de qualquer bebida alcoólica. A alegação banal para a proibição era que a bebida degradava o ser humano e era a causa de toda a sua desgraça, de toda a violência no mundo.

Na prática ninguém parou de beber. A bebida só não podia ser comercializada. Não legalmente. O que só fez crescer o contrabando, vindo principalmente do Canadá, e as destilarias clandestinas. O resultado disso foi exatamente o contrário ao que justificava tal lei: a criminalidade só aumentou, faturando horrores com o tráfico e venda ilícita de álcool, sendo que na cadeia de comando não faltavam ricos empresários e políticos dos mais altos escalões (qualquer semelhança com o atual tráfico de drogas e armas não é mera coincidência, não é mesmo?).  Para combater esses crimes o FBI, ainda bebê, criou uma divisão especialmente para tal, e que teve muito trabalho para poder colocar atrás das grades os criminosos. É dessa época que conhecemos Eliot Ness, policial federal responsável pelo encalço de um dos mafiosos mais famosos da história: Al Capone, que curiosamente só acabou preso anos mais tarde por conta de sonegação de impostos, nunca pelo seu envolvimento com o tráfico de bebidas e assassinatos.

Em Boardwalk Empire, acompanhamos a aurora dessa época, focados no personagem de Enoch “Nucky” Thompson (magistralmente interpretado por Steve Buscemi, que ganhou o Globo de Ouro pelo papel), um irlandês radicado desde a infância com a  família nos EUA, e que ganhou notoriedade como Tesoureiro de Atlantic City. Nucky  vive num hotel-cassino com todo o luxo que o dinheiro pode comprar e praticamente manda na cidade, cujos cidadãos o reverenciam e volta e meia lhe pedem uma audiência. Político de dar inveja, ele curiosamente prefere sempre ficar nos bastidores, endossando seus candidatos a prefeito, a governador e até a Presidente, sempre, obviamente, pensando no retorno financeiro e social que isso lhe acarreta. O império de Nucky só poderá ser abalado pela jovem viúva Margaret Schroder (Kelly MacDonald), por quem ele se apaixona. Margaret de ingênua não tem nada, como podemos perceber ao longo da trama e começa a entender o jogo político por trás da Lei Seca.

Steve Buscemi como Nucky Thmpson. Está na hora da Academia de Hollywood reconhecer seu talento.

Paralelamente (na verdade, nem tanto) à trama principal, acompanhamos a vida de James Dammordy (Michael Pitt), jovem veterano da Guerra, que mora com Ângela e com ela tem um filho pequeno. Ambicioso, ele é apadrinhado por Nucky, mas sabe que pode galgar melhor posição na vida e está disposto a qualquer coisa para tal, tanto que em determinado momento da série ele fica amigo do jovem Al Capone (Stephan Graham) e vai com ele para Chicago.

Jimmy conhece Al Capone.

Criada por Terence Winter (The Sopranos) e produzida por  Mark Walhberg e Martin Scorsese (que dirigiu o piloto da série), Boardwalk Empire tem 12 episódios na sua primeira temporada, que mais do que mera ação (dosada muito bem!) é recheada de tramas densas e muita politicagem, que nos fazem entender os meandros de toda a lama em que os que detém o poder podem se enfiar.  A reconstituição histórica é ímpar, com uma fotografia impecável e direção de arte idem. Nós somos transportados para os anos 1920 e toda a sua atmosfera como por mágica. A trilha sonora também é um personagem a parte. E a vinheta de abertura é excelente, traduzindo em pouco mais de 60 segundos toda a atmosfera da série, isso sem contar a música, que remete bem a origem irlandesa do personagem principal.

Se você não assistiu Boardwalk Empire, não perca tempo e corra atrás! Seja nas reprises da  HBO, seja na locadora bit torrent mais próxima de você.

3 comentários:

  1. A HBO acertou novamente, pelo jeito.
    Só tenho restrições à série Sex and The City. Os últimos episódios que eu assisti eram de uma estupidez atroz, girando em torno de grifes caras e relacionamentos adolescentes demais para a idade das atrizes. Chegou ao ponto de a Carry ir a uma loja Channel comprar um vestido horroroso e uma bolsa absurda que ela tinha que carregar acima da cabeça, já que as franjas da bolsa eram mais compridas que a moça.

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  2. Acompanho muito as series HBO, sou fascinado por True Blood, mas ainda nao assisti essa. Agora voce ate me deixou realmente curioso pra assistir, ja li maravilhas sobre a serie e Steve Buscemi em seu primeiro papel principal.
    Sobre Sex and the City, sempre achei os relacionamentos adolescentes demais pra idade das atrizes, a Carry, em poucos episodios que eu vi, lembra uma adolescente lendo seu diario, disso que trata a vida dela: um diario de adolescente.

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  3. Realmente Sex and the city tinha momentos em que mais parecia o post de uma adolescente em seu blog, mas no geral era divertido. Mas se formos parar para pensar, do que poderia falar um seriado com 4 amigas pra lá de balzaquianas e as vezes bem fúteis em Nova York, não é mesmo? Não a toa o segundo filme foi uma BOMBA!

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