terça-feira, 11 de março de 2014

Drone de elite do futuro

Quando foi anunciado que o diretor José "Tropa de Elite" Padilha assumiria a direção do remake de Robocop, clássico oitentista dirigido pelo holandês Paul Verhoeven, muitos torceram o nariz, muito menos pela capacidade do brasileiro em dirigir um blockbuster hollywoodiano, e mais pela qualidade do que viria por ai, já que outros remakes de filmes americanos de Verhoeven foram terríveis em público e crítica (vide o nefasto e totalmente desnecessário "Vingador do Futuro", de 2012).

Mas Padilha estava na crista na onda, havia levado mais de 10 milhões de brasileiros ao cinema (hábito pouco comum em terras tupiniquins, ainda mais para um filme brasuca), e estava bem na fita dos produtores e distribuidores internacionais, desde que seu "174" estreou e foi elogiadíssimo em festival de cinema mundo afora. Ele teve bala na agulha para decidir e fazer o filme que ele queria.

Bem, na verdade, ao que parece, não foi isso o que aconteceu. Ele sim pode ter tido o poder de decisão em boa parte de seu filme, mas em certos momentos podemos notar o dedo dos produtores (em se tratando de Hollywood, não há como fugir, correto? afinal, aquilo lá é uma indústria que visa lucros acima de tudo).  Agregando profissionais de sua confiança a produção, Padilha contou a história a sua maneira, com muitas questões éticas e sociais, chamando o público a participar da discussão - o personagem de Samuel "Modafoca" L. Jacskon, Pat Novak, apresentador de um programa jornalistico sensacionalista faz a ponte entre a audiência e esses dilemas (mais ou menos como o Wagner Montes Fortunato de André Mattos em "Tropa de Elite 2"). E que papel esse de Jackson!!! Solto em cena! Fantástico!

Na versão de Padilha, escrita pelo ilustre desconhecido Joshua Zetumer, o incorruptível policial Alex Murphy (o inexpressivo Joel Kinnaman, assim como seu antecessor no papel, Peter Weller) sofre um atentato na porta de casa após decidir na marra - e contra a vontade de sua delegada - investigar possíveis policiais corruptos  que teriam sido responsáveis pela quase morte de seu parceiro Jack Willis (Michale K. Williams, de "Boardwalk Empire"). Com o marido a beira da morte, é oferecido a sua esposa Clara (a lindíssima igualmente inexpressiva Abbie Cornish) que Alex seja voluntário da empresa Omnicorp, lider em robótica e responsável pelo fornecimento de robos e drones ao exército americano.  O que a empresa, na pessoa de seu chairman Raymond Sallers (Michael Keaton, excelente no papel!) quer é aprovar o uso de robôs em solo americano, algo vetado pelo congresso e pela própria população. Com um produto com traços humanos, identidade, e consciência (o que o torna passível de emoções) , a Omincorp poderá mudar o quadro político a seu favor - o que, de alguma maneira, não seria má idéia... Murphy então tem praticamente todo o corpo amputado e substituído por partes robóticas (um ciborgue!) , inclusive partes do cérebro, o que o torna na prática mais máquina do que homem (colocando Darth Vader no chinelo). Restam-lhe praticamente apenas o rosto e uma mão, que seria usada para o contato humano com a população, algo que estranhamente é deixado de fora do filme. Detentor de força e agilidade, o Robocop é mais um drone, um Homem-de-ferro em uniforme agora preto (Alô, Bope?), do que o tanque de guerra que era no filme de 1987. Ele corre, pula, bate. Mas é vulnerável.

Embora diferenças na história e no roteiro, Padilha fez questão de homenagear o filme de Verhoven em vários momentos, a começar pela música tema e o logotipo, logo no começo, além de algumas frases de efeito presentes naquele original, como "Morto ou vivo, você vem comigo!". Até a armadura original é apresentada, num breve momento que faz o link com o filme original, como se o Robocop atual fosse uma evolução daquele distante protótipo. Citações à greve dos policiais e a OCP (no finalzinho) também fazem a alegria dos fãs, assim como sons de engrenagens e dispositivos hidráulicos tão comuns em robôs em movimento, ainda estão presentes e faz a alegria dos marmanjos de hoje que, quando crianças e adolescentes, como o próprio Padilha foi na época, não cansavam de imitar. Ainda assim, é um filme de Padilha, que coloca o dedo na ferida da sociedade, dessa vez, a americana.

As cenas de ação são um tanto quanto burocráticas, nada inovadoras (talvez aqui um indício da interferência dos produtores), assim como o roteiro, que tem incongruências que se não chegam a comprometer a história, incomodam o público mais exigente. Por exemplo: eles controlam as emoções de Murphy diminuindo seu nível de dopamina no cérebro, mas como num passe de mágica Murphy as recupera;  ou o fato da família de Murphy continuar morando no mesmo lugar onde ele sofreu um atentado; sem falar na mão "humana" de Murphy que foi esquecida em algum lugar na estória.... A falta de um vilão a altura de Clarence Boddicker, de Kurtwood Smith (o pai do Eric Foreman de "That 70 show") também incomoda, restando a Murphy apenas o antagonismo com o "treinador de robôs" Rock Mattox (Jackie Earle Haley), que não perde tempo em trollar e "bullynar" o "homem de lata". Fico imaginando onde  essas horas estava o talentosíssimo Braulio Montovani...

O Robocop de Padilha não é nem melhor nem pior do que o Robocop de Verhoven. É apenas diferente, uma nova versão, para um público novo. O bom filme de ação que, infelizmente, será lembrado mais como o primeiro filme do brasileiro em Hollywood (que venham outros mais!) do que como um ícone do cinema como o filme do Holandês é.

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