sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Libertas quae sera tamen


"Liberdade antes que tardia!", bradavam os inconfidentes mineiros, na luta pela independência do Brasil, lá no século XVIII, ou seja, estavam se levantando contra a "escravidão" que era a condição de colônia imposta  pela sua metrópole, Portugal, já havia 3 séculos.Liberdade! Antes tarde do que nunca!

Em "12 anos de escravidão", Solomon Northup (interpretado com maestria poelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor) sabe muito bem o que é isso. Homem livre, exímio violonista, morador do estado de Nova York em meados do século XIX, é ludibriado pelo que hoje não passariam de uns trocados e, traído, acaba indo parar no sul extremamente escravagista, onde recebe novo nome e acaba vendido como escravo para a plantação do senhor Ford (Bennedict Cumberbatch). Dos males o menor, pois, tirando sua condição de escravo, seu senhor é extremamente humano e benevolente - mas ainda sim um senhor de engenho, escravagista, que não quer saber de seu passado (teme represálias se o ajudar) e, para livra-lo da perseguição do capataz interpretado por Paul Dano (sempre ótimo no papel de um surtado), acaba vendendo-o para o senhor Edwin Epps (Michael Fassbender, excelente!), um demônio em forma de gente, um senhor de escravos que faria qualquer romano na mesma condição sentir inveja, tamanha a crueldade com que trata sua "mercadoria". É na plantação de Epps que Solomon passa maior parte de sua desventura, comendo o pão-que-diabo amassou.  Ele não tenta fugir, pois sabe dos riscos que correria como "negro fujão", e aceita sua sina com retidão, pois sonha em rever sua família, de alguma forma.

O diretor Steve McQueen, negro, ao contrário de colegas como Spike Lee, não é adepto do ativismo racial (seu filme anterior, "Shame", com Micheal Fassbender, falava sobre as neuras de um homem quanto a sua sexualidade exacerbada, fruto de uma infância roubada), mas fez um filme que instiga o espectador a encarar de frente o horror da escravidão. Em certo ponto, Solomon, cansado, desiludido, vira-se para a câmera, mas não olha em seus olhos; ele olha através deles, e vai além, num olhar distante, perdido e quae sem esperança. Somos cúmplices de seu sofrimento. McQueen, que concorre ao Oscar de direção, apoiado no roteiro de John Ridley (baseado no livro puiblicado pelo próprio Solomon após sua libertaçao) não tira o foco do protagonista; nós estamos com eles em todas as cenas, cúmplices de sua angústia. A direção de atores é fantástica, tanto que há indicações para Chiwetel, Fassbender e Lupita Nyong'o.

"12 anos de escravidão" é um clássico filme de Oscar; roteiro, história cativante, direção, fotografia, direção de arte. Talvez seja esse seu maior problema. Nâo que o filme seja ruim, muito longe disso. É um filmaço! Mas foi claramente confeccionado, desenhado para angariar Oscars, o que pode, justamente, não acontecer. O que seria uma pena...



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