terça-feira, 12 de junho de 2012

Quase Famosos


"It's all happening!"

Nesse fim-de-semana eu reencontrei velhos amigos. Pois é assim que me senti ao re-assistir “QUASE FAMOSOS”, obra prima que o diretor e roteirista Cameron Crowe rodou lá nos idos de 2000, baseado em fatos de sua própria adolescência, quando precocemente, aos 15 anos, acompanhou a banda The Alman Brothers por uma turnê pelos Estados Unidos a pedido da revista Rolling Stone. No filme, o auter-ego de Crowe, William Miller (Patrick Fugit), é convidado pelo próprio Ben Fong-Torres, editor da famosa Rolling Stones, a escrever uma matéria para a revista e William indica a banda em ascensão STILL WATER. Está dada a largada para a aventura de uma vida. E que aventura!

William, criado com rigor quase eclesiástico pela mãe, a professora universitária Elaine (Frances MacDormand, em papel que lhe rendeu uma merceda indicação ao Oscar 2001), mergulha de cabeça no universo ludibriante e non sense do Rock & Roll dos anos 1970 em sua aventura pelas estradas americanas a bordo do ônibus Doris que leva a banda a seus destinos. Apesar de ainda um garoto, é o personagem mais centrado e humano da história, e por que não, o mais responsável. Encantando pela “band adict” (vulgo “groupie”) Penny Lane (Kate Hudson, linda e talentosa, em seu primeiro papel de destaque que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar), ele busca entender aquele universo paralelo que até então desconhecia, ou conhecia apenas pelo lado de cá da capa do vinil. Em determinada passagem, ele pergunta a despudorada Penny (que não revela seu verdadeiro nome) se ela não tem amigos normais, ao que ela solta: “pessoas famosas são mais interessantes”. E são mesmo, ele percebe, mas deveras falsas.

Mais que um road movie, esse verdadeiro musicalé uma viagem de auto-conhecimento e amadurecimento. O reflexo da capa de THE DARK SIDE OF THE MOON no para-brisas do carro de Penny quando esta leva William ao hotel em San Diego onde estão hospedadas várias bandas que tocavam ali num festival, marca o início desse mergulho de William no mundo, ou melhor, submundo do sexo, drogas e rock-and-roll. Da mesma forma, o mergulho que o guitarrista Russel Hammond (Billy Cludup, sensacional) dá do telhado de uma casa para a piscina após bradar que era um Deus Dourado, chapado pelo ácido e para o delírio dos adolescentes presentes na festa, é o início do amadurecimento dele como homem e ser-humano. O resultado da cena emblemática dá início a uma das mais belas sequências do filme, quando a trupe (banda, jornalista e groupies) a bordo de Doris, quebra o climão pesado criado pela briga que culminou com a fuga de Russel para a tal festinha , e canta  TINY DANCER, de Elton John. William, fascinado mas preocupado com sua demanda, diz a Penny que ele precisa ir para casa. Ela sorri e, encantando-o, afirma: “você está em casa”. E mesmo que não tenha percebido, é assim que William se sente, mesmo incomodado com todo aquele circo. A certa altura, William recebe a notícia de que sua matéria será capa da revista e ele não consegue, num primeiro momento, digerir tamanha responsabilidade, caindo em choro de frustração, no momento mais humano de seu personagem. Ele está frustrado e preocupado e não consegue entender como pessoas que têm tudo para serem as mais felizes e realizadas do mundo não conseguem segurar o ego e se entender e ainda mais destratar aqueles que mais as admiram, ou seja, seus fãs, principalmente Penny, que é “vendida” junto com as outras garotas por uma caixa de Heinekken e uma garrafa de whisky para outra banda numa rodada de pocker. Desiludida com Russel, a apaixonada Penny entorna qualudes guela abaixo e se vê salva por William, que se declara para ela logo antes do socorro médico chegar e nela fazer uma lavagem estomacal ali, na frente dele. Ao som de MY CHERRIE AMOUR, de Steve Wonder, William admira sua musa mundana, seu amor platônico, “distante como a via láctea”, como diz a música.  Seus olhos dizem tudo. Palmas para Patrick Fugit.

O roteiro impecável de Cameron Crowe, aliado a sua direção precisa e toda a parte artística por trás do filme (palmas e mais palmas para a direção de arte, a fotografia e a direção musical), brinda o espectador com uma jornada do herói interessantíssima, onde o mestre é representado pelo lendário crítico de rock  Lester Bangs (inspirada interpretação de Philip Seymour Hoffman), que guia William em sua missão, que é a de escrever a melhor matéria sobre uma banda que "luta internamente com suas próprias limitações enquanto tenta assimilar o estrelato". 

Completam o elenco a lindinha e então desconhecida Zoey Deschanel, como Anita, irmã de William, que aos 18 anos, brigada com a mãe, sai de casa para ser aeromoça, as "band-adicts" Anna Paquin e Fairuza Balk, e Jason Lee, o lead singer Jeff Bebe.

Filme para ser visto e revisto diversas vezes!

3 comentários:

  1. De fato é um filme fantástico! Adorei e já assisti algumas vezes, mas essa sua análise deu alguns outros pontos de vista bem interessante (parabéns). Mesmo assim não o considero uma obra prima (estou longe de bem saber analisar tecnicamente um filme)! Faltou alguma coisa, não sei bem o quê! Reforço, ADORO esse filme, talvez se ele fosse mais longo... Esse vale a pena de qualquer jeito.

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    1. Danilo, aconselho então assistir a versão estendida, presente tant ono DVD quanto no Blu-ray. São cerca de 20 minutos a mais.

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  2. Olá, também sou fã do Cameron Crowe. Dirigi um fan film em homenagem a ele chamado "Crowe´s World", atualmente em pós produção. Convido você a acompanhar as novidades pelas nossas redes sociais.

    https://www.facebook.com/crowesworld/info
    https://twitter.com/CroweWorld

    Abraços

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