terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma ode à melancolia humana

Um planeta de órbita exterior ao sistema solar é descoberto em rota de colisão com o planeta Terra, ou pelo menos é isso que os apóstolos do apocalipse querem fazer pensar, contrariando os cientistas que alegam que o corpo celeste, logo chamado de Melancolia, vai passar direto por nos, ocasionando no máximo um lindo espetáculo celeste. Está dada a largada para mais um filme de Lars Von Trier. Por isso mesmo, não espere que Bruce Willis vai aparecer e junto com uma equipe de mercenários irá decolar num foguete em direção ao astro e destrui-lo com uma bomba nuclear. Apesar de termos Jack Bauer no elenco (desculpe, Kiefer Sutherland), esse não é um filme de ação e ficção científica. Se você for daqueles que somente assistem a filmes desse naipe (sem querer de maneira alguma desmerecê-lo), passe longe de Melancolia. Agora, se você gosta de bons diálogos e situações tensas, deleite-se com mais uma obra de arte do diretor de Dogville.

Contato em duas partes, cada uma delas focando em uma das irmãs protagonistas (mas com claro foco maior em Justine, personagem de Kirsten Dunst, em seu melhor papel), Melancolia fala do efeito devastador que a vinda do astro tem sobre a população. Vamos todos morrer? Vamos todos ser abençoados? Será o arrebatamento final? É a vinda do anti-cristo? Ou é a volta de Cristo? Esperança e angústia. Dor e alegria. Felicidade e desespero. Escolha o que sentir e você verá tal sentimento personalizado nas irmãs Justine e Claire (Charlote Gainsbourg, que deveria ter sido  indicada ao Oscar) e também no marido de Claire, John (Kiefer Sutherland, no automático). Aliás, o personagem de Sutherland é um dos mais interessantes. Rico, inteligente, dono de um chateau com “campo de golfe com 18 buracos”, como gosta de repetir, ex-cientista, é entusiasta da passagem do planeta, mas é o primeiro a se entregar ao desespero quando percebe um perigo real e imediato (estoca comida e água, mas “só por precaução”) enquanto tenta tranquilizar a mulher, desesperada como fim iminente.

O filme, como se propõe o título, é praticamente uma ode a melancolia humana. Em determinada cena, Justine chega a dizer para a irmã que a vida na Terra é má e que não acredita que exista vida em outro lugar, já que não tem esperança de haja qualquer vida que não seja má.  É uma ladeira abaixo na esperança.  Já na primeira parte temos a festa (muito chata por sinal) de casamento de Justine e Michael (Alexander Skarsgård), onde somos apresentados  a família disfuncional das irmãs e o chefe e padrinho de casamento de Justine (aplausos de pé para o elenco de primeira, com nomes como John Hurt, Charlotte Rampling e Stellan Skarsgård). Todos muito humanos, todos externando seus defeitos em pudor. Na segunda parte, já vemos Justine em frangalhos, deprimida com o fracasso na vida pessoal (mas talvez por isso mesmo a mais forte e a que melhor aceita o provável destino) ser amparada no chateau onde John e Claire moram com o pequeno filho Leo.

Sem pudores em aproveitar o máximo a tecnologia digital (sequer tenta disfarçar a fotografia com inclusão de granulação para simular película), von Trier e seu diretor de fotografia Manuel Alberto Claro exploram a locação (um lindo castelo na Suécia) ao máximo, contrastando o verde da natureza, com o frio azulado do planeta Melancolia, e junto com a música arranjada por Brooke Wentz, dá a sensação de liberdade, clausura e isolamento ao mesmo tempo.  Mais melancólico impossível. Perfeito.

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