segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Luta de classes velada na telona

A luta de classes na sociedade é muito bem representada pela sétima arte. O clássico "O ENCOURAÇADO POTEMKIN" mostra o conflito entre as classes dominante e trabalhadora numa rússia pré-revolução.  "THE HELP" ("Histórias Cruzadas") mostra claramente a intransponível barreira, mesmo que invisível, entre patrão e empregado doméstico. Neste simplesmente maravilhoso "QUE HORAS ELA VOLTA", essa barreira, igualmente existente aqui no Brasil, começa a ser quebrada pelas atitudes de uma jovem filha de empregada doméstica que não consegue, aliás, não aceita a imposição social a que, por nascimento, é obrigada a viver.

Numa verdadeira aula de roteiro e cinema, Anna Muylaert conta com muita subjetividade e, em certo pontos, objetividade clara, a história de Val (Regina Casé, soberba), nordestina que deixou a filha aos cuidados de terceiros para trabalhar como doméstica em São Paulo, praticamente criando o filho de outra mulher. Quando sua filha Jéssica (Camila Márcila) resolve ir para São Paulo tentar o vestibular para a faculdade de arquitetura, o mundo de Val, e consequentemente o mundo de seus patrões, é virado de cabeça para baixo. Máscaras caem. A doméstica, que "é parte da família", começa a enxergar seu verdadeiro lugar dentro daquele micro-cosmos, onde não é bem vinda a mesa de jantar a não ser para servir. Aliás, enxergar não, entender.

Anna Muyalert é muito feliz em colocar a câmera praticamente sempre com o ponto de vista de Val, não exatamente com seus olhos, mas como o mundo é visto da cozinha para fora. Val, que nos é apresentada no início quase de maneira invisível, vai aos poucos ganhando espaço no enquadramento, até que se liberta finalmente das amarras, dos grilhões, e vai viver sua vida aos 50 e tantos tanos.  Nós nos simpatizamos com Val de cara, mas a medida que ela cresce no filme, mais simpatia nós sentimos. Mas, por outro lado, Anna é muito eloquente no que se refere a visão dos patrões, principalmente da patroa Bárbara (Karine Teles). Em nenhum momento "dona Bárbara"é colocada como a grande vilã opressora da estória. Ela simplesmente é o que é. Assim como Val, é a cria da sociedade. Ela não está errada na maneira como age, apenas é o que sempre foi; o retrato da hipocrisia. Resta ao público sentir pena dela, quando muito, e nada mais. Da mesma forma Jéssica, atrevida como é, causa certa antipatia por sua aparente falta de educação, mas ao mesmo tempo causa admiração por ser o elemento chave na reviravolta do status quo daquele ambiente.

"QUE HORAS ELA VOLTA", escolhido pelo Ministério da Cultura para pleitear uma vaga no Oscar do ano que vem, não pretende ser uma aula de civilidade mais do que é um excelente entretenimento, mas mesmo assim é um convite à reflecção sobre nosso papel rumo a uma sociedade um tantinho mais justa.

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